Representação, presente e inação ativa

O que é isto? [Satyaprem pergunta segurando um objeto]

Participante 1 – Um livro.

Quem te disse que isto é um livro?

Participante 1 – Alguém me disse. Eu aprendi. Não me lembro…

Isto é um livro porque alguém te disse… Ou não? Ou é um livro?

E você, o que é isto? [Ainda apontando para o mesmo objeto]

Participante 2 – Parece um livro.

Parece um livro, não é? E você? Parece uma pessoa ou é uma pessoa?

Participante 2 – Creio.

Eis a palavra chave: crer. Então isto aqui é um livro, ou você crê que é um livro? O nosso propósito aqui é deixar de crer e saber. A minha pergunta é: o que é isto?

Participante 3 – Eu não sei.

E você, o que acha?

Participante 4 – Eu acho que tenho que abrir para saber.

Se você abrir, vai fazer o quê?

Participante 4 – Vou pegar e…

É difícil, não é? A mente idolatra a representação. Para ela, tudo precisa de uma representação. Isto aqui [apontando para o objeto em questão] é representado por este nome: livro.

Mas o que é isso, afinal? Nós não queremos a representação, queremos saber o que é isso. E é difícil responder essa pergunta, porque, na verdade, você nunca olhou antes dessa maneira para as coisas.

Veja, este artifício dentro da mente, que chamamos de ego – que é a noção de si mesmo separado do outro, separado das coisas –, adora representação. O seu ego é o seu representante, não é você. Ele apenas representa você. Então as pessoas encontram umas às outras através de seus representantes, elas não encontram a si mesmas diretamente.

Se você olhar do ponto de vista que estou propondo, a sociedade se formaliza através de representações. Tudo tem uma representação. Até mesmo quando não serve para nada e não sabe o que fazer da vida, você tem um filho e, necessariamente naquele instante, passa a representar a instituição pai/mãe. Agora você continua um inútil, porém, representando uma fantasia.

Note! Historicamente, a mente tem buscado por representações. A quem o papa representa?

Participante 1 – A Igreja.

Não, o papa não representa a Igreja. O papa é a cabeça da Igreja. Quem ele representa?

Participante 2 – Supostamente, Deus.

Errado. Ele representa o filho de Deus. Ele é o representante de Jesus. Ele é o seu representante terreno. “The only one who is a child of God”, o único que é filho de Deus – você não é filho de Deus, vai tirando o seu cavalinho da chuva.

[Risos]

O que o Dalai Lama representa?

Participante – Buda.

Isso. É uma representação. E todas essas representações são respeitadas. Adoradas. Por quê? Porque a fórmula existe e é aplicada em todos os níveis.
O reitor da faculdade representa o poder instituído. E mais, não basta você ser um bacharel em Direito por exemplo, é preciso ter a carteirinha da OAB. Você tem que ter uma representação, uma firma. Se você simplesmente advoga no seu quarto, não tem a menor credibilidade, precisa ter um escritório. De preferência, daqueles com três nomes: “Pinto, Volsbein e Smith – Negócios Escusos”. Tudo em busca de uma representação.

Aqui, no entanto, brincamos com a possibilidade de você deixar de ser representado por uma coisa que não é e assumir um você sem nenhuma representação. O duro é que tudo o que conhecemos se apoia numa representação. E estamos tão bem aclimatados, aculturados, com a questão da representação, que não notamos nem mesmo mais o que aquilo representa, ou o que significa.

Experimente! Ande com um livro por aí, pegue um ônibus, vá trabalhar ou para a escola com um daqueles livros bem complicados debaixo do braço e veja que você começa a ter credibilidade. Você está representando um certo nível de intelecto. Uma abstração, é claro, mas que, de alguma maneira, é respeitada.

Dependendo do nome da escola em que estudou, não importa se aprendeu algo, mas se, segundo as estatísticas, o colégio tem um bom nível de ensino, você está bem representado. O que importa é o nome, a representação.

Existe até mesmo um fenômeno chamado currículo. Ou seja, a representação da representação da representação. Tudo o que aconteceu no seu passado e algumas pinceladas de mentira. Mas a verdade é que ninguém jamais contratou você por sentir você no momento presente. Sempre esteve em pauta o seu passado, as representações.

Romper com a representação é o convite.

Mas como fazer isso?

Questione-se: quem você pensa que é? Se a resposta for “uma pessoa”, saiba que isso é uma representação, uma abstração. Afinal, o que é uma pessoa?

Então remova aquilo que é representado e veja o que é que fica. Inevitavelmente, o que fica é a fonte de tudo.

Quem é você?

Você é a fonte de tudo.

Você não é quem pensa que é

Ana Elizabeth Diniz / Especial para “O Tempo”
Belo Horizonte/MG – Junho/2006

É preciso esgarçar conceitos construídos ou assimilados ao longo do tempo para entender o que propõe o místico Satyaprem – palavra que significa amor pela verdade.

Com uma sinceridade rara, ele vai, ao longo da entrevista, revelando que é preciso que rompamos com a estrutura formal da mente e vislumbremos o desconhecido, ou seja, a nossa própria natureza. Somos estranhos para nós mesmos.

É preciso ter consciência da consciência, ou ver quem realmente somos. “Não há busca, não há caminho, não há método. A iluminação é aqui e agora. Nada é tudo o que você tem a fazer. Renda-se!”, provoca o místico.

É esse olhar quântico da experiência humana na Terra que Satyaprem, 47, compartilha com centenas de pessoas que vão participar dos “satsangs” – palavra sânscrita que significa encontro com a verdade – em diversas capitais do Brasil.

O que ele propõe é radical: “O ser humano não tem meta. Não estamos aqui para fazer nada, não temos a menor função”. Sua busca começou aos 23 anos, quando estudava jornalismo na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul.

Anarquista teórico, se encantou com o pensamento de Carlos Castaneda e do líder espiritual Osho e foi viver em Oregon, Estados Unidos, na década de 80, em uma comunidade conhecida como Rajeeshpuram, um “oásis no deserto”, para onde se dirigiam todos aqueles que queriam experimentar uma vida livre, desapegada das amarras de uma sociedade escravizada pela ganância financeira.

Lá, Satyaprem, que não considera importante revelar o seu nome de batismo, se tornou um “sannyasin”, classicamente um renunciante. Praticou durante anos a meditação ativa e conheceu uma vida de libertação dos sentidos.

Em Seattle, Estados Unidos, estudou com Suddha, uma discípula de Osho, que criou uma técnica chamada iluminação intensiva, ou vislumbre de iluminação, também conhecida no Japão como “satori”.

Hoje, esse gaúcho de Bagé, e muitos anos vividos nos Estados Unidos, Índia, Holanda, Alemanha, Noruega e Suécia, trabalhando em comunidades como terapeuta, sentencia: “Você não é quem você pensa que é”.

“O real não é o experimentado”

Estou diante de Satyaprem, olhos negros intensos. Como que advinhasse a complexidade do que ali seria dito, peço um café forte. E me coloco aberta para acolher palavras, apenas palavras que provocam, inquietam, estimulam e me remetem a um templo interior pouco explorado.

Naquele momento compreendo que “o real não é o experimentado”. Contrariamente ao que eu supunha, eu não sou a observadora do mundo.

“Quem está vendo não é quem está observando. O observador é a consciência que é eterna, universal e una. Todos somos a mesma coisa – não coisa -, a consciência que não pode ser experimentada pelos objetos dos quais somos conscientes. O ser humano não pode experimentar a consciência porque ele é a própria consciência sonhando que é um ser humano”, explica Satyaprem.

Lampejos de nós

Sem me dar tempo para processar essas informações, ele prossegue: “Tornar-se pressupõe tempo e o tempo não existe. Essa experiência é apenas um lampejo daquilo que já é. Ou seja, tornar-se é uma impossibilidade, pois já somos. Tudo faz parte e é a mesma coisa. Buscamos experiências daquilo que somos antes de sermos o que pensamos que somos – seres humanos”.

O místico considera que devemos resgatar a ordinariedade. “Ela é fundamental para a compreensão de nossa natureza. A idéia é recolher idéias e viver o real, ver o ordinário como divino”.

Satyaprem alerta: “Perceba quanta energia o indivíduo consome em tornar-se. Projeções para o futuro. Isso gera culpa e ansiedade. Estar preso ao presente é a verdadeira liberdade”. Para o místico, o sonho do ser humano é recriar quem ele é quando ele já faz isso num ato de amor, breve.

“Compreender é controlar. Não existe instrumento capaz de entender o ininteligível. O corpo não contém a consciência, mas a consciência contém o corpo. O corpo está na consciência”. Mas, afinal, pergunto eu, qual o objetivo do ser humano?

“Descobrir quem somos. Nossas ações são gerenciadas por uma força maior, estranha e externa a nós. O mecanismo corpo e mente é apenas um objeto na consciência. Na unidade a consciência se confunde com o objetivo até que ela se ‘desconfunde'”.

A mente se acomoda no silêncio do agora

Você tem que se acomodar no silêncio do agora. Só tem um lugar para ficar, e esse lugar lhe é dado, naturalmente, de presente. Ele é absolutamente o lugar mais relaxante de você ser. Seja agora! E veja o que você colhe desse “ser agora”.

Se você se aquieta, você nota que aqui e agora não tem mente. E mesmo que ela apareça, como você não está a alimentando, ela desaparece. É como se a energia que estava focada antes em algum lugar fosse desfocada. O seu corpo-mente tem sempre um impulso, porque a natureza do corpomente é movimento.

Parada, a mente não existe. Ela sabe que parada, some. Então, ela se alimenta, ela tem sempre que fazer alguma coisa. É o movimento da mente e do corpo que faz a manutenção da idéia que você tem de quem você seja. Se você começa a se aquietar, essa idéia não é mais retroalimentada.

Essa idéia começa a sumir e surge algo novo: você começa a se tornar consciente de que você não é o que você pensa que é. Você permanece sendo quem você pensa que é, simplesmente, relembrando o passado. Sua memória tem um poder e se você nota isso, você pára de contar sua história e começa a ficar no silêncio.

Então, a história do silêncio – que não é uma história – começa a ser contada para você. Agora você olha para o agora. E, nisso, nasce um “novo você”. A ênfase em olhar para dentro tem que ser absoluta. Se você olhar para o lado externo, o que você vê? Limitação, em todos os lugares.

Se você olhar para fora, tudo o que você vê é limite, inexoravelmente. Se você vê isso, você tem que antever que esse corpo e essa mente têm limites, porque eles foram criados por pessoas altamente limitadas pelo tempo, pela cultura imposta.

Claro que você pode trabalhar isso, mas, mesmo assim, não há o ilimitado na mente e no corpo.

A partir daí nasce uma outra possibilidade: como não olhar para o outro com compaixão, se você tem limites também? Nasce uma relação diferente. Você não mais exige do outro algo que ele não tenha condições de lhe dar.

Você não está aqui para preencher o outro, porque o seu preenchimento não vem de fora para dentro, e, sim, de dentro para fora.

A ênfase é: vá para dentro! E na medida em que você vai para dentro, você vê que as pessoas estão nesse atropelo, nessa ansiedade, nessa angústia, nesse medo, porque tudo que elas têm está do lado de fora. Você tem que começar a ver isso no seu dia-a-dia.

Comece agora! Este é um bom momento. Neste instante: quem é você? Para onde você olha para responder a essa pergunta? Olhe para dentro! Comece a entender o que “dentro” seja.

E, de dentro, não pode surgir resposta nenhuma, a não ser silêncio, relaxamento e paz. Toca nisso, se desmancha nisso… Já está aqui e agora! Meditação, então, não é uma técnica ou algo a ser feito, é algo inerente, que está dentro de você. Basta olhar para dentro.

Fragmentos de iluminação

Morte – Você ainda vai morrer, você ainda vai sentir dor, mas tem uma coisa que em nosso processo completo de vida não levamos em conta, não é falado, não é tocado, não é elaborado de forma alguma. Nós vivemos dentro da nossa cultura de uma forma refletida! Nós nos refletimos nos outros. E uma experiência refletida é secundária. Ela é indireta, não é uma experiência direta de quem somos.

Sofrimento – As pessoas sofrem porque vivem de acordo com o reflexo e o reflexo não é o que você é. Você não é o seu reflexo! Você é aquilo que é refletido, você é aquilo que está atrás do espelho.

Homem – Nós nos relacionamos com o mundo como se o mundo fosse um objeto, as pessoas fossem objetos e nós fossemos um sujeito. Nós não passamos de objetos também. Essa pretensão de ser alguém, que você chama de eu, é apenas um objeto. E aquilo que você é, transcende tudo isso, porque não pode ser manipulado por ninguém.

Você não pode ser nada que você esteja vendo, você é simplesmente aquele que vê. Você não pode ver a si mesmo, por que quem veria? Aquilo que nós somos, a essência é imensurável. No entanto, pode-se saber, pode-se realizar, pode-se reconhecer isso pelo simples motivo de que isso é a nossa realidade.

Processo, natureza, observação e paz

Trago uma pergunta: do que a Consciência precisa para existir? Mas já antecipo: Ela não existe, Ela é. Quando diz “a minha Consciência”, você está exercitando a completa cegueira da sua mente. Porque a Consciência não é a sua, é a Consciência. E, então, nasce uma nova pergunta, detonada pela primeira: para que a Consciência foi desenhada?

Participante – Se ela não existe, ela não foi desenhada.

Acontece que não é lógico assim. Ela foi desenhada por uma razão e é por isso que estou trazendo essas questões, inclusive nessa ordem.

Veja que a mente é bem cartesiana, mas agora ela tomou uma rasteira.

[ Risos ]

A Consciência foi desenhada, sim. Para quê?

Note: o que a Consciência está fazendo agora, neste instante?

Participante 1 – Ela foi desenhada para ser consciente de si mesma.

Não entendi.

Participante 2 – Para não ser consciente de si mesma.

Não, calma! Isso já é demais.

Participante 3 – Neste momento, Ela está observando.

Observando. Então, para que ela foi desenhada?

Participante 3 – Para observar.

E digamos que seu corpo esteja enfermo e vá capotar daqui a dois dias, o que a Consciência faz com esse drama iminente?

Participante 3 – Observa.

Observa.

E aqui temos algo muito interessante: se você começa a se dedicar a essa realização, a dar-se conta de que a observação está implícita em qualquer processo que ocorra, pode ver que não há nenhum processo que sobreviva à Consciência. Ou seja, a Consciência sobrevive a todos os processos, mas nenhum processo sobrevive a ela.

Isto é, tudo o que acontece, desacontece. E a Consciência nem acontece, nem desacontece. Todos os eventos – sentimentos, sensações, pensamentos, isso, aquilo e aquilo outro, inclusive você como corpo-mente – desacontecem. E a Consciência é a presença desses eventos.

Enquanto a Consciência está inconsciente de si, o corpo e a mente vivem cheios de temores e tremores. Porém quando a Consciência está consciente de si, há relaxamento tanto no corpo quanto na mente.

Dentro do infinito, silêncio

Quando você conecta com o agora – alguns de vocês já notaram –, a mente perde substância. No agora não há mente. Seria como dizer que você perde as características, pelo menos temporariamente. Mas há algo que fica. As características se vão, e você fica. Isso que fica é o que deve receber toda a sua atenção.

Observe se aquilo que permanece presente, apesar de qualquer acontecimento, é uma história na mente, uma memória, uma sensação, um registro sensorial ou alguma outra coisa.

Chega um momento em que a pergunta “Quem é você?” não pode mais ser submetida às respostas dos históricos que você guarda. A alternativa, portanto, se faz única. Impossibilitado de acessar qualquer história, qual é o seu nome?

Estamos diante do mistério. E se aceita essa proposta, de cara, sem artifício algum, você está nas bordas da linguagem. Linguisticamente você até pode dizer que é o nada. Mas, nesse nível, os pronomes perdem o sentido. O “você” só tem aplicação se houver o “outro”. Mas, nesse ambiente, não tem você nem o outro. O outro é você. Você é o outro.

Desnudo das características, aquilo que somos é uma e a mesma coisa. E não é coisa alguma. Não tem substância. Não está no espaço. Não está no tempo.

Ao deixar de lado todas as condições, você começa a sentir uma Presença – digo dessa maneira para que seja inteligível, mas não passa pelos sentidos em realidade. Essa presença não está no corpo. O corpo é, objetivamente, um objeto dentro disso. Um objeto temporário dentro do infinito que você é.

O coração do coração, lugar nenhum

Participante – Quero compartilhar algo sobre a pergunta “quem é você?”: ocorre-me que a resposta esteja em algum lugar onde está o coração.
E onde está o coração?

Minha preocupação é que a mente sempre tenta localizar, concluir. Então, quando dizemos “coração”, isso logo aponta para um conceito – conhecido pela mente.

A pergunta “quem é você?” é um convite para que veja que não há um “você” em algum lugar. Nem mesmo no coração. Está muito além do coração.

Por certo, você deve cair da mente para o coração, mas o coração é o meio do caminho. Agora você tem que cair do coração ao Ser.

Sim, é muito bonito e muito mais gracioso e prazeroso encontrar-se no coração do que na mente. Mas quando você está repousado no Ser, nem mesmo dizer que é “bonito” cabe. Porque é tão imenso, que não tem palavra que caiba.
Dessa forma, a pergunta “quem é você?” está posta para colocar-nos em contato com essa visão.

Inicialmente, há um empreendimento da mente em descobrir, em saber. E todos aqueles que tentaram, com a totalidade da sua energia, em algum ponto, chegaram ao irremediável estado de frustração. Porque, simplesmente, não há como saber. Por mais que você tente, não tem como saber. Porque saber é o mesmo que conter. E para que haja o conter, tem que haver uma divisão entre o contido e o que contém. Tem que haver um você – que é, fundamentalmente, a condição em que a mente se encontra, em que as pessoas se encontram.

Todos são “alguma coisa”. Então, quando a pergunta é posta sem aviso prévio – quem é você? –, há uma tendência enorme de buscar alguma coisa. E todos juram que, mais cedo ou mais tarde, irão encontrar essa “alguma coisa”. Mas o fato é que não tem coisa nenhuma. A ideia de que você seja alguma coisa é mental, fictícia.

Por isso, o afunilamento tem uma função. Diante da pergunta “quem é você?”, dê-se conta de tudo o que você não é. Comece por tudo aquilo que pode ser visto, ouvido, cheirado, sentido ou pensado, tudo aquilo que perece, e veja o que é que fica. Isso que fica é você!

A capacidade de ver, a ira da mente e os navios imaginários

A mente funciona como um ladrão, ela rouba você de você. Sem pertencer a um lugar específico, é universal e atua possuindo tudo o que vê pela frente, tornando tudo dela.

A proposta de todos os budas, de olhar para dentro, é de investigar a mente.

Investigue-a, para ver as suas crenças – que são, necessariamente, o que a mente acredita – e, então, observar.

Como um ladrão, o mero fato de ouvir a palavra “observar” faz com que a mente tome posse da expressão e logo passe a dizer que está observando. Diz, inclusive, estar observando em seu nome. O que faz com que você não note que quem observa não é ela.

A mente não pode observar, mas pode diluir esse processo de tal maneira que venha a tornar a observação inacessível. Por isso, questionar a mente é a coisa mais importante que você tem a fazer. Antes de encher a boca de qualquer tipo de conceito, antes de encher a boca com palavras como “amor” e “meditação”, antes de encher a boca com promessas futuras, você tem que ver o que é a mente e como ela funciona.

Sem essa atenção, a mente roubará de você a verdade. Ladra que é, rouba até mesmo a verdade da verdade que a verdade tem. A mente rouba a verdade da verdade de tal maneira, que a verdade vira uma mentira.

A mentira é muito fácil de ser aceita pela mente. A verdade é inaceitável para a mente, a verdade rompe com os grilhões da mente, a verdade rompe com a mente. A relação que você tem com a sua mente acaba na presença da verdade. E isso é tão radical, que é uma raridade.

Constantemente, a mente se reorganiza e segue chupando, roubando, absorvendo tudo por onde passa – inclusive aquilo que propõe acabar com ela, ela absorve, transforma em seu material. E você fica a ver navios.

Se não estiver alerta, é muito fácil cair nas armadilhas da mente.

A mente não está interessada na verdade, porque a verdade acaba com ela. Simples assim. Vou redizer: a mente não tem interesse na verdade, porque a verdade acaba com ela. E a menos que você tenha se dado conta disso, nada é possível. Porque sem essa percepção, você apenas faz o que a mente faz: aglutina, adiciona, conquista, possui. É como um saco sem fundo, nunca está suficiente para a mente.

Um mestre não é suficiente – a mente diz –, então ela corre atrás de vários e planeja conseguir fazer uma síntese, ela mesma, pretende pegar o que há de melhor em cada um. Isso é a mente!

Porém, a mente não pode pegar nada, ou ainda, pode, mas o que faz com o que pega? Transforma tudo nela mesma. A humanidade está escrava da mente, e não é de agora, é desde sempre. Romper com a mente é a coisa mais rara; romper com a mente, verdadeiramente, é a coisa mais rara que existe.

A bíblia cega e o dentro no alto

Outro dia, de carro, estava a caminho de uma cidade e parei para pedir informação sobre o trajeto. Havia um casal e uma criança; o homem vestia um terno bege, com gravata e carregava uma bíblia debaixo do braço. Possivelmente – num pequeno mundo fictício particular –, estavam indo para a igreja. Então os abordei e pedi uma ajuda. Aquele homem estava de muito boa vontade, era um homem de total boa vontade. Ele me instruiu, sorriu e agradecemos.

Mas o fato que chamou a atenção é que era nítido que ele precisava incorporar aquele papel. Além daquilo ali, ele não era nada. Se tirássemos a sua gravata e aquela bíblia da sua mão, começaria a chorar como uma criança. Mas é exatamente isso o que, às vezes, a vida propõe: ela tira a bíblia da sua mão, tira a sua gravata, para ver se você aguenta o tranco. E então você chora, pois você está sendo frito – não é nem cozido, é frito… –, porque a vida tem pressa, ela tem planos para você.

E quanto mais perto da Verdade, inclusive, mais é acelerado esse processo. Aqui, o crescimento é garantido. Você não está apenas sendo cozido, está sendo frito numa panela de pressão. Senão levaria muitas vidas. Até porque você se casa, passa uma vida inteira casado, com a bíblia na mão, morre, nasce de novo e pega a velha bíblia novamente, seguindo os mesmos passos… Por dez vidas você pega aquela bíblia de novo e de novo, até que um dia cansa.

Se você está se sentindo “frito”, saiba que é a vida tentando te empurrar para fora desse círculo. É incrível, mas o organismo funciona de tal maneira que tem amortecedores e potentes sistemas de proteção; ele não quer ser rompido.

Aquele homem de boa vontade, que cruzou o meu caminho, não passa de uma criança. Ele cresceu, trocou mais ou menos as roupas, mas continua tão inseguro, tão sem alma… Como disse Gurdjieff: “As pessoas nascem sem alma e morrem sem alma”. Que infortúnio! Perdemos décadas e décadas fazendo nada.

Participante – Mas aí a tendência é ficar sozinho, na minha…

Não! É fazer música, é fazer arte, é ser feliz… e pronto.

Participante – Mas e se as pessoas ficam me puxando?

Deixe que puxem. Observe: “Estão me puxando”. Mas para onde podem te levar?

Participante – Nossa! É difícil demais.

Quando comecei a participar de grupos de meditação, no princípio, eram grupos de meditação pura e simples. Então fazíamos uns exercícios que serviam para aumentar o perímetro psicológico, para dar mais força e coisas assim. Lembro que um dos exercícios consistia em brincar com alguns movimentos de uma luta marcial chamada Kenpō. Basicamente, ficávamos empurrando um ao outro e não podíamos perder o nosso centro, fisicamente falando.

Note, percorrendo uma trilha ou subindo numa árvore, como está o seu centro? Se eu pedisse para subirmos numa árvore agora, alguns subiriam e outros iriam temer – não há centro. Aliás, esses dias alguém veio ajudar numa obra e no momento de colocar as telhas do terceiro andar, não conseguiu. Ele não conseguia passar do segundo degrau da escada, porque ficava tonto. E é fato que o corpo fica tonto naquela altura, mas ele tinha que atravessar essa tontura. Se arriscar passar do segundo degrau da escada, vai ver que à medida que sobe, a tontura vai se perdendo.

Se for o caso, suba um degrau a mais por dia, até que você note: “Uau! Estou em cima do telhado, e como a vista daqui é incrível!”

Se as pessoas lhe puxam, deixe que puxem! Apenas não vá com elas. A ideia é que a mente deseja estar num lugar onde ninguém te puxe. Isso não é uma exigência um pouco exagerada? Como é que você vai conseguir isso?

Então deixe! Alguém lhe puxa e você diz: “Fique à vontade!”. De repente, passa até a ser divertido. Outras vezes, pode ser duro mesmo e seus nervos gritam… Mas segure o koan: Quem é você?

Ou você segue os mesmos velhos passos que a humanidade vem, cegamente, seguindo, ou você encontra o seu centro e arrisca ir mais alto. O que, no nosso caso, é ir mais fundo, para dentro.

Sem máscara, fora dos trilhos, a vida

Se permanecêssemos como nascemos, nossa!, seria muito lindo. Mas olha no que a maioria se torna ao crescer. A verdade é que você não deveria precisar de maquiagem. Por que você usa maquiagem? Para esconder a feiura nos dias de festa, não é mesmo? – “Um pouco de rímel aqui, um corretivo ali… e assim eu engano a torcida”. Sim, porque na cara dura, assim como você se sente, assim como se percebe, não dá.

Ok, não é tão ruim assim; estou levando a um ponto extremo para tornar gráfico o entendimento proposto. Satsang é o que permite, primariamente, darmo-nos conta de que fomos absurdamente condicionados a sentir e pensar. Porém, o que é seu de fato?

Mesmo que você não durma esta noite pensando sobre isso – “Meu Deus! Eu sou de segunda mão…” –, descubra o que é seu. O seu nariz é do seu pai; seus olhos, da sua mãe; o cabelo, da avó… nada é seu!

No entanto, ao voltar-se para dentro, que é a proposta de satsang, você descansa naquilo que verdadeiramente é – e mesmo essa genética, herdada, se reorganiza. De maneiras inusitadas inclusive. É bem possível que até os seus pais queiram saber o que anda acontecendo para que você esteja tão diferente.

Esse “diferente” – que também pode ser chamado de estranho ou desconhecido – é o principal inimigo do condicionamento. Veja: segundo o nosso condicionamento, não se deve conversar com estranhos. O condicionamento é aquilo que não permite que você “saia dos trilhos”. Sob os condicionamentos impostos, vive-se preso dentro de um perímetro mínimo. De repente você olha do lado e percebe que está casada com alguém que é igual ao seu pai – ou à sua mãe. Algo foi interrompido e você está buscando, infortunadamente, recuperar isso. Mas não existe nenhuma razão para você casar com seu pai, a sua mãe já casou! Você deve casar com outra pessoa, alguém completamente novo. Casar com seu pai não vai funcionar, você tem que buscar algo diferente.

Mas quantos de nós se dão conta disso? Quantos de nós se dão conta de que não precisamos repetir os mesmos modelos? Por que não rever tudo isso e criar novas formas de se relacionar, de pensar, de sentir, de ser?

Volte ao seio daquilo que você é e reorganize essa ordem imposta. Somente assim verá certas situações surgindo e você tendo como resposta uma surpresa. E quando começa a se surpreender consigo mesmo, por ter respostas inusitadas, começa a sentir uma enorme alegria de viver, que não se compra na farmácia, que vem de dentro. De repente, você começa a ser feliz consigo mesmo, a amar a si mesmo. Pelo simples fato de estar vibrando de uma maneira distinta, sem maquiagem.