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O padre, o lama e a falácia do dois

Um dia, um famoso padre católico perguntou ao Dalai Lama: “qual a verdadeira religião?”. Dalai respondeu que “a verdadeira religião é aquela que religa você com o divino”. Simples. Por definição, é isso que significa; mas essa sentença contém uma falácia que vem sendo explorada desde tempos imemoriais. Exploremos!

Religião liga quem com quem? Em tese, você com o divino. O que implica que um trajeto precisa ser traçado. Através de algum processo alquímico, você há de religar-se ao divino. E, nessa separação, existe um “você”. Aliás, há você – subentende-se –, profano, e o divino, sagrado.

Então, para fazer o trajeto até o divino, é preciso purificar-se; não é possível alcançar o divino assim, tal qual você está. Nesse sentido, exige-se uma imensa quantidade de tempo e demandas que, possivelmente, não serão alcançáveis.

Digo isso porque se você se conhece tão bem quanto o conheço, sabe que não conseguirá. O que já seria um descrédito nessa pressuposta religião.

Segundo essa teoria, não se discute quem é você e, tampouco, quem é o divino. Parte-se de pressuposições condicionadas: você encontrando o divino, você se ligando ao divino – sem fazer uma investigação precisa, a priori, de quem seja você e o que seja o divino.

Em realidade, leva-se em consideração, nesse pressuposto, que você já sabe quem você e o divino sejam e que só falta um processo através do qual você possa se religar a ele. É uma falácia que tem sido explorada por milênios. Pondere.

Aceito que faça um trajeto de religar-se ao divino, contanto que primeiro me diga quem você é – essa é a minha única condição. Se vir quem você é, provavelmente o trajeto há de se delinear facilmente.

O fato é que a inconsciência é explorada até mesmo pelas religiões. Posso dizer, inclusive, que religião é a exploração da inconsciência das pessoas, assim como o futebol, a política… É preciso que você esteja inconsciente de si, para absorvê-los.

Portanto, antes de tentar religar-se a alguma coisa, veja se está desligado. Pode que, de repente, você não esteja desligado de nada, nem mesmo do divino. E então não há nenhuma necessidade de fazer qualquer trajeto para religar-se.

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