Ir para conteúdo

Wild Wild Leela – Daniel Lisboa entrevista Satyaprem para UOL

Daniel Lisboa entrevista Satyaprem para UOL
Sítio Leela, 3 de junho de 2018

DANIEL LISBOA – Quando estava vindo para cá, passei por uma área em que pegava sinal de internet 3G e já começaram a pipocar todas as mensagens de WhatsApp. Uma delas perguntava: “E aí, como é que foi naquela seita secreta no Rio Grande do Sul?”. É assim que pensam as pessoas que não conhecem aqui, que não conhecem o seu trabalho… Então, como você percebe que elas trabalham esses estereótipos? Ainda é uma questão, simplesmente, de elas estereotiparem o que não conhecem? O que é diferente?
SATYAPREM –
Exatamente. O trabalho que fazemos aqui é o de fazer as pessoas descobrirem o quanto elas estão condicionadas a ver as coisas de acordo com um molde. Estereótipo é um molde que as pessoas herdam. As pessoas aprendem a ter um molde. E elas pegam aquele molde e o sobrepõem ao que quer que seja.
Chamar de “seita” já traz uma conotação negativa. O sistema entrega às pessoas inconscientes esses estereótipos para aniquilar qualquer tentativa de novidade. Dá-se uma tonalidade negativa quando se chama alguma coisa de “seita”. E, quando é dito “seita secreta”, duplica-se a negatividade num certo sentido.
Mas eu gosto do “secreto” porque todas as pessoas que têm um estereótipo muito arraigado em sua mente – ou seja, lidam demais com a aparência e, nesse sentido, a aparência proveniente do que eles aprenderam – viram agentes desse sistema e não chegam aqui. Porque aqui é secreto; aqui é para aquelas pessoas que não estão tentando compreender as coisas do lado de fora, que querem compreender do lado de dentro. Ou seja, quem vem aqui vem para conhecer a si mesmo.
Não tem nada de secreto no sentido de obscuro ou escondido. É uma coisa totalmente aberta, mas o nosso trabalho aqui implica exatamente em romper com os estereótipos, romper com as aparências, romper com as ideias pré-fixadas do que as coisas sejam.
A ideia de seita é uma ideia de nulificação de “poder” através de um discurso religioso, ou seja: a única coisa que é religiosa para os cristãos é a igreja. Então, eles põem a denominação de seita sobre qualquer coisa que seja diferente, aniquilando toda possibilidade e impedindo que certas pessoas venham aqui.
No caso, não me importo e até agradeço porque há certas pessoas que não merecem vir aqui. Elas que fiquem onde estão. Aqui é um lugar para as pessoas que querem, de verdade, descobrir quem são. Então nem vem ao caso (a questão sobre a estereotipação) porque ninguém chega aqui com estereótipos. Se chega, logo perde. Não tem como manter o estereótipo porque não estou trabalhando com absolutamente nada que não seja uma ordinariedade que você e eu temos. Aqui vemos que por trás dessa ordinariedade, dessa aparência, existe um segredo: o segredo é a sua Consciência, é isso o que nós “des-cobrimos” aqui. Não me preocupo com estereótipos.

DL – Você acabou até dando gancho para o que eu ia perguntar em seguida. O Sítio Leela existe desde 2001, é isso?
SATYAPREM –
É. O trabalho aqui no sítio, com satsang, começou no ano 2000, mais ou menos. Mas estamos aqui desde 1998, quando ainda fazíamos algumas terapias. Então já estamos aqui há 20 anos. Por isso é secreto: ninguém sabe.

DL – Claro que corremos o risco de generalizar. Mas, com toda essa experiência que você já tem em receber essas pessoas aqui, dá para dizer o que, em regra, elas procuram? Ou, justamente, elas não sabem o que procuram?
SATYAPREM –
Toda a humanidade procura a si mesma. Ou seja, todas as pessoas na humanidade estão em busca de si mesmas. Elas não sabem, mas buscam por si mesmas; como a busca de uma satisfação, de uma pacificação.
As pessoas se comprometem e se confundem. Elas confundem a satisfação com coisas, relacionamentos, objetos, situações, status social. Tudo isso é uma busca de si mesmo. As pessoas que buscam ter um casamento feliz estão buscando a si mesmas. Por quê? Porque elas acham que, se casarem, serão felizes. Mas já há estatísticas. Poderíamos usar isso como informativo: não tem por que casar; você não vai se satisfazer.
No entanto, a satisfação – e isso é milenar – ocorre exatamente quando você encontra a si mesmo. Todos que vêm aqui estão em busca de si mesmos, ainda que no meio do caminho estejam confusos com uma outra coisa qualquer.
Note: as pessoas dizem “eu quero a felicidade”, mas se você pergunta para elas o que é a felicidade… elas não sabem. A felicidade é algo muito vendável, mas a felicidade não é nada. A felicidade é um estado temporário de ser. Poderíamos dizer que a sua natureza, que encontrar aquilo que você é, seria um sinônimo de felicidade. Mas o que acontece é que, quando você encontra isso, vê que isso não é felicidade porque felicidade é algo muito superficial – algo muito barato de se vender.

DL – E é um dos conceitos da moda, não é? Um dos conceitos mais vendáveis e mais subjetivos.
SATYAPREM –
Muito fácil de vender, supersubjetivo, porque cada um tem o seu próprio (conceito). Mas aqui tem algo interessante, relevante para conversarmos rapidamente. Veja: quando se está aprisionado nessa subjetividade mental, cada ser humano vira uma ilha, cada um tem a sua própria percepção. A verdade, nesse nível, fica absolutamente impossível.
Você tem que objetivar a sua percepção, tem que notar que foi condicionado a viver em uma ilha, em uma bolha. Estão todos dentro de bolhas. Aqui, portanto, vamos – plop! – estourar essas bolhas para que você confronte outras possibilidades; possibilidades que, definitivamente, não estão condicionadas na sua mente.
Na nossa sociedade – e, quando digo “na nossa”, não me refiro apenas ao Brasil porque viajo por todos os lugares e acontece da mesma maneira no mundo inteiro – esse parece ser o projeto da humanidade: viver numa bolha. As pessoas se trancam em bolhas: “Eu penso assim, essa é a minha opinião” e “a gente respeita a opinião do outro”. É uma falácia! Isso não é verdade! Opiniões não devem ser respeitadas: devem ser discutidas, devem ser postas em teste. Não adianta eu ter a minha opinião, e você ter a sua, e nos isolarmos nas nossas opiniões sem a menor chance de uma conversa. Não é nem dialético! Temos que abrir as nossas opiniões e ver se as opiniões têm fundamento real, existencial; e, se não tiverem, não vale a pena mantê-las.

DL – Você falou em fundamento… E sabe que caí aqui meio que de paraquedas…
SATYAPREM –
Mais ou menos, não é? Você vem fazendo matérias em lugares que fazem não sei o que, não sei o que lá… Você está tateando… Você veio aqui sabendo, veio tirar alguma coisa para escrever uma matéria. Vejamos o que você vai fazer.

DL – Sim, também não sei ainda.
SATYAPREM –
Até porque também iremos fazer uma.

DL – O quê?
SATYAPREM –
Uma matéria sobre você.

DL – Tá brincando!
TODOS –
[Risos]

DL – Eu estava mesmo percebendo esse movimento – o metajornalismo. Eu acho que estou fazendo com você, mas vocês é que estão fazendo comigo.
SATYAPREM –
Claro. Porque, a menos que você compreenda certas coisas, a sua matéria vai ficar uma porcaria. Porque vai ficar superficial. Não que eu tenha achado suas matérias ruins. De tudo o que vi, está tranquilo, você descreveu as coisas. Mas, aqui, nossa intenção está além da descrição.
Veja: também fui jornalista uma época, fiz muitas coisas, também fui terapeuta e escritor. Teve um momento em que eu estava na Índia, com uma amiga, uma terapeuta reconhecida, discípula do Osho desde os primórdios, que foi minha tutora durante muito tempo no trabalho com pessoas. Um dia lhe falei de algo que iria escrever e ela disse: “Satya, quando você for escrever alguma coisa ou entrevistar alguém, não pense para quem você quer falar; pense o que você quer saber”. Porque “o que você quer saber” vai tornar o seu trabalho muito mais profundo do que “se você imaginar um público-alvo para quem você queira escrever” (que é o que acontece no mundo e que torna qualquer material muito superficial).
Mas se você pergunta o que realmente interessa a respeito do meu trabalho, o que interessa a você como pessoa – se é que há algum interesse, claro –, isso muda tudo. Por isso que, quando você chegou aqui, no satsang, te pressionei um pouco. Para você entender. Porque, senão, você estaria cheio de perguntas banais, como a primeira pergunta que você fez sobre o estereótipo das pessoas.
O que as pessoas pensam importa de verdade? Aliás, o grande efeito do nosso trabalho é exatamente fazer com que você se dê conta de que aquilo que as pessoas pensam sobre você, ou o que você mesmo pensa sobre você, não tem importância. É o que você vê, antes de pensar, que importa.
Ouvi, um pouco antes de começar a entrevista, você falando para alguém que eu não tinha “cara”… É muito bom isso! É proposital, pois não quero ter uma cara que você reconheça. Senão, vou tocar apenas no estereótipo. Precisa haver um rompimento. Você tem que me perceber de outra maneira. Se estiver baseado apenas no estereótipo… você vai correr de mim – o que agradeço, com todo carinho. Corra! Aqui têm que vir aqueles que têm coragem de confrontar um rompimento com a estrutura mental; você vai ter que notar que buda não tem “cara”.
Encontre uma imagem de Bodhidharma, por exemplo – de quem não temos fotografias, mas temos pinturas. Ele não tinha uma “cara de buda”; no entanto, foi um dos budas mais importantes depois do próprio Buda. Ele era feíssimo, indócil, não tinha aquela cara estereotipada de bonzinho.
Note: no mercado moderno de mestres espirituais, no mercado dos “babas”, as pessoas seguem os estereótipos: todos têm que ter barba longa e fala mansa. Mas isso não tem absolutamente nada a ver com a verdade – isso tem a ver apenas com um mercado. Eu não estou aqui para satisfazer o mercado; não tenho nenhum produto. Estou aqui exatamente para aquelas pessoas que querem sair do mercado, que querem sair da rotina, que querem sair da grande freeway do mercado espiritual ou do que quer que seja. Se você se der conta, nem mesmo proponho algo espiritual. O que estamos compartilhando aqui não tem a ver com uma espiritualidade estereotipada – tem a ver com a Verdade.

DL – Sim, até era disso que eu ia falar antes… Quem não conhece o seu trabalho, ou mesmo quem chega aqui pela primeira vez, sem conhecer muito, pode associar ou pensar em algo com um viés espiritual ou esotérico. Mas o que chamou a minha atenção, pessoalmente, é que você aborda lógica em cima de lógica. Você acredita que, para as pessoas, às vezes é mais difícil trabalharem só com a lógica do que trabalharem com algo com um viés, digamos, mais fantasioso ou mágico? Porque a lógica pega mais fundo.
SATYAPREM –
Não diria que tem lógica. Aqui, usamos a mente como um instrumento para quebrar o domínio que a sua mente tem sobre você. Ou seja, você acredita em certas coisas e essas coisas têm que ser questionadas. Usa-se um certo nível de lógica, obviamente; mas, à medida em que você rompe com os condicionamentos, abre-se para o mágico. Imediatamente você entra em silêncio. A sua mente não está mais dominando. Quando você rompe com certos parâmetros que a mente vende, você vê. Você mesmo deve ter experienciado aqui: não tem lógica o que as pessoas pensam! Quando digo “não tem lógica”, aqui, quero dizer: por que é que elas estão pensando aquilo? Então aí entra o nível de subjetividade do qual estou falando: você não pode ficar num ambiente subjetivo que é como um ambiente úmido, podre. Você tem que secar isso, você tem que ir para fora disso.
Então, quando percebe que certas coisas em que você acreditava não têm fundamento existencial – aqui você usou a palavra “lógica” –, você se abre para uma nova possibilidade. Imediatamente você se abre; não há o que se fazer. Essa conotação “lógica” é apenas um instrumento para você descobrir o que está por trás disso.
Por exemplo, quando se pergunta para uma pessoa “quem ela é”, logicamente a resposta parte do ponto de vista pré-concebido. Aqui, então, fazemos uma espécie de investigação acerca desses conceitos, da relação desses conceitos com a existência, com o momento presente; e, logo, revela-se que as pessoas não têm absolutamente nenhuma base naquilo em que acreditam: é tudo totalmente pensado. Em outras palavras, as pessoas estão inconscientes.
E, quando uma pessoa inconsciente diz que não pareço o que quer que seja que ela queira que eu pareça, que fundamento tem em eu respeitar essa opinião? É como um cego falar de uma coisa que ele nunca viu e você respeitar a opinião dele. Não pode ser. Você vai ter que explicar para o cego que “não é bem assim” até que ele entenda que o que ele estava pensando foi uma condição aprendida. Aprendida em prol de um sistema que não quer que você veja em totalidade, porque, se começar a ver, você verá tudo. Tudo, de verdade.
As crianças veem as coisas como elas são, mas interferimos nesse ver e introduzimos um outro modelo de visão que é um substituto controlável: ao invés de ver, passam a pensar. Logo, pensa-se e pensa-se e pensa-se… E, quando questionamos esse pensar, ele se desmancha, esfacela-se, gerando uma nova possibilidade: o ver se reestabelece.

DL – Esse tempo – desde que você começou a receber as pessoas aqui no sítio – foi exatamente o período do advento das redes sociais. Você acha que, nesse universo das mídias sociais, as pessoas, em regra, colocam ali uma imagem mais que idealizada delas mesmas?
SATYAPREM –
Isso é bobagem porque as pessoas idealizavam suas próprias imagens, em outros tempos também, da mesma maneira. Hoje temos apenas um outro meio de promover, de mostrar isso, mas o substrato real é o mesmo. Antes as pessoas também vivenciavam a vida através de imagens. Faziam fotos de casamento, faziam álbuns… É uma besteira se opor a isso. Na verdade, sempre que algo novo aparece na humanidade existe uma rejeição do status quo. É natural. Não deveria ser, mas é natural porque o status quo não admite nada que seja diferente dele mesmo.
Então as pessoas falam que as redes sociais estão dilacerando o tecido social, blá-blá-blá… Mas isso não está ocorrendo (até porque estamos falando de um tecido social que já está dilacerado). Veja: quando você se dá conta das coisas, você vê que as coisas estavam uma merda – desculpe a expressão. E, aí, não tem como tapar o sol com a peneira. Você é obrigado a ver. Você vê.
O que as mídias sociais fizeram foi abrir a possibilidade terrível de todos falarem. Assim, tanto os que falam merda quanto os que falam coisas boas aparecem. Isso não é ruim. Isso é bom porque provoca a síntese desse processo.

DL – E é curioso porque muita gente acha que o Brasil, hoje, está mais conservador, reacionário. Mas a impressão que tenho é que não é o caso de estar mais – o que ocorre é que agora todas as pessoas têm voz. Antes você não sabia o que o seu vizinho pensava e agora ele está lá no seu Facebook.
SATYAPREM –
Exatamente. E a cada momento na história se abrem novas possibilidades. É como se bolhas explodissem. Por exemplo, nesse momento histórico se abriu, realmente, a possibilidade dos reacionários falarem. Por quê? Porque, de certa maneira, a história é pendular – não sei se você entende esse conceito. Ela vai de um lado para outro; ela cria um momentum e vai de um lado para outro.
O problema é que o poder estabelecido, que não tem nada a ver com direita ou esquerda, não está interessado na ideologia – está, sim, interessado em manter o poder. Então, quem quer que seja que esteja no poder se submete ao poder. Porque os que estão no poder, aparentemente, são marionetes de algo maior, invisível, de verdade. Há um movimento pendular. Tanto se tentou ir por um lado, que, não dando certo, agora o pêndulo se move para o lado contrário. No entanto, existe uma brecha neste percurso: o “poder”. Antes o “poder” não permitiu, e, agora, não permitirá também. Mas, necessariamente, esse poder reacionário, ele é muito violento, ele é muito mais…

DL – É mais visível, talvez, mais evidente.
SATYAPREM –
É boçal, não é? Falam-se coisas que não deveriam ser ditas. É preciso ter consciência do que deve ser dito. Mas agora está aberta uma grande liberdade. Este é, digamos assim, o fenômeno da democracia, que permite que você diga a besteira que você pensa. O fato é que, antes de falar a besteira que você pensa, pare para analisar um pouquinho, vá até alguém que te ajude a pensar melhor. Há coisas que não poderiam nem ser pensadas – quanto mais ditas! Por quê? Porque todos nós deveríamos nos tratar com um pouquinho de respeito, um pouquinho de amor. Não tem lógica, é muito inconsciente, irracional, o que está acontecendo. É um sinal de que as pessoas estão precisando extravasar.

DL – Sobre esse movimento pendular… Ontem você contou a história daquele pesquisador que foi à Polinésia e encontrou os macacos que lavavam a fruta antes de comer. No final, você falou que nós, que estamos aqui, somos esses macacos. Deu a entender que parece que está crescendo o número desses “macacos”… Você acha que há mais pessoas, hoje, atrás dessa busca ou é apenas mais uma questão de momento histórico?
SATYAPREM –
Há mais gente. Ao mesmo tempo em que estou falando com você aqui a respeito disso é bem possível – não temos como saber, mas é bem possível – que em outros lugares do mundo esteja acontecendo a mesma coisa: uma conversa sobre o mesmo tema para ser publicado em algum lugar.
Nos encontramos aqui, em satsang, para meditar, para compreender a verdade da nossa existência. E, em algum outro lugar do mundo, estão fazendo a mesma coisa como nunca antes foi feito. Isso se explica com uma razão muito simples: a energia do universo tem um equilíbrio; ela se mantém. Então, quando se gera muita negatividade, num certo nível, ao mesmo tempo é gerada positividade, num outro nível, para equilibrar. O existencial precisa se manter; se houver um desequilíbrio haverá a destruição do existencial.
Quando digo existencial não estou falando da existência humana – estou falando da existência do universo. O universo tem um equilíbrio intrínseco, que é mantido e se manifesta dessas maneiras a nível social: muita reatividade e, imediatamente, muita liberação para equilibrar.

DL – Acho que é um bom gancho para já irmos para esse assunto… Não sei se é possível comparar, mas, se compararmos hoje com quando você esteve lá nos Estados Unidos [em Rajneeshpuram], acredita que naquela época era mais restrita a busca por esse tipo de resposta? Não sei se, num ponto de vista, no Brasil.
SATYAPREM –
A forma era diferente. Nós estamos falando aqui de Osho, não é? É disso que você está querendo falar?

DL – Aham.
SATYAPREM –
Osho abriu uma possibilidade que antes era absolutamente impossível. Ele abriu portas. Ele foi o cara que destruiu a porta do esotérico, a porta das religiões, ele entrou com tudo em todas, falou de todas as religiões estabelecidas que existem. E ele fez um experimento. Um experimento tremendo – que não é aquilo lá que “aquele troço” faz. O experimento dele foi, exatamente, permitir que você fosse para dentro de si mesmo.

DL – “Aquele troço” que você diz é a série [Wild Wild Country]?
SATYAPREM –
Sim.
Osho fez um experimento e o trabalho dele não tinha nada a ver com construir cidade nenhuma. Aquilo foi uma tremenda besteira daquela pessoa lá que eles colocaram como protagonista.
Eu estava lá e nunca ouvi Osho falar que queria fazer uma cidade. Nem eu queria fazer uma cidade porque não existe a necessidade de fazer uma cidade. A real necessidade foi juntar o maior número de pessoas, criar o maior movimento energético no mundo para que se rompesse com os parâmetros religiosos conhecidos.
Então ele fez um experimento tremendo, que incluiu, claro, a sexualidade. Mas hoje, por exemplo, esse experimento não precisa se repetir no mesmo nível. Tem gente ainda tentando, preso nisso, mas não precisa. Porque é como ondas… Ele gerou uma explosão – boom! – e isso se espalhou.

DL – E fazia sentido naquele momento específico…
SATYAPREM –
Naquele momento, sim. Porque aquele momento era final dos anos 60, começo dos anos 70. Eu não estava lá nessa época, cheguei no final dos anos 80. Mas, durante os anos 60, anos 70, era preciso abrigar, de uma maneira, digamos assim, libertária, as noções de desenvolvimento humano que estavam ocorrendo na Europa e nos Estados Unidos. Os hippies, as drogas, o sexo, a música… Tudo isso influenciou. Ele, simplesmente, colocou tudo isso num contexto de busca espiritual: permitiu que as pessoas vivenciassem os seus traumas, as suas repressões.
Quando uma pessoa quer ficar desnuda, mas não pode, e você permite (num ambiente controlado, num ambiente saudável), aquela pessoa tende a experimentar algo transformador. Se você experimenta os seus medos, os seus traumas, num ambiente seguro, você recebe um tremendo continente de energia. Essa é a sua energia vital que está suprimida pelos controles sociais.
Por que é muito importante que as crianças tenham medo? E, claro: crianças que têm medo tornam-se adultos que têm medo, adultos amedrontados amedrontam as crianças, que tornam-se adultos amedrontados que amedrontam outras crianças. Assim vivemos em um clima de medo o tempo todo.
Osho, então, pegou essa supressão que é o condicionamento humano e deu ventilação a isso. O que aconteceu? Novos estados de consciência são experienciados; novos estados de percepção. De repente, você começa a descobrir que a vida não era exatamente como você estava pensando. E tudo isso de uma maneira não intelectual: a única maneira possível à época por não haver maiores aberturas.
Mas Osho já falou o suficiente. Hoje podemos ir de uma maneira muito mais direta, que é o que estou fazendo. Muito embora, nos verões, aqui no Sítio Leela, eu use um dos seus métodos dos mais potentes [o Satori]: algo bem do início, que acontece exatamente através de movimentos, através de abertura do corpo, de pressão intelectual… Enfim, um profundo questionamento sobre quem você é. Você passa por uma limpeza física, uma limpeza emocional e uma limpeza, obviamente, mental. Em três dias você se torna outra pessoa.

DL – É, já me recomendaram. Fortemente. Esse é o que ocorre antes do carnaval, não é?
SATYAPREM –
Sim. Perde até peso.

DL – É mesmo?
SATYAPREM –
Cinco quilos, mais ou menos.
[risos dos presentes]

DL – Jura? Ou você está brincando?
SATYAPREM –
Juro, é uma beleza. É a melhor coisa que existe.

DL – Ah é?
SATYAPREM –
É.

DL – Tá bom.
SATYAPREM –
Mas, voltando… A questão da iluminação, que é uma coisa que se discute, hoje, mais abertamente, o que seria exatamente? Numa mente condicionada temos a iluminação como um superpoder, como algo extraordinário. Isso porque as pessoas não se deram conta de que iluminação, em qualquer instância, é, exatamente, você estar em pleno poder da sua própria natureza. Você é a sua própria natureza. Não tem nada de extraordinário. É quando você, ao contrário, solta toda essa extraordinariedade – isso que você quer vir a ser um dia – e se torna o que você já é – porque já é natural, já é dado.
É como tirar uma roupa. Os conceitos, a personalidade, as ideias que temos de quem somos, são roupas: roupas de ferro, roupas de aço, roupas de titânio, roupas que não são moldáveis, que oprimem a energia vital.
Então, quando você desveste isso, vai descobrindo uma naturalidade, uma ordinariedade que transcende qualquer coisa que a sua mente imaginava. E é preciso que você se dê conta. Dar-se conta de quem você é, é absolutamente surpreendente para aquilo que você imaginava. Por quê? Porque quem imaginava era uma mente idiotizada, pobre.
E isso não é de hoje. Na história do Zen, na história da iluminação antiga – e o Zen é um dos sistemas que mais iluminou, mais do que o Yoga ou qualquer outra coisa – já se falava que, quando os monges iluminavam, quando havia o advento de dar-se conta de quem eles eram, havia duas respostas possíveis a esse evento: ou eles choravam ou eles riam.
E há explicação para ambos os casos.
Você chora porque vê que passou um tempão ignorando algo tão natural, tão seu, que apenas estava escondida em você. Você gastou tanto tempo e dinheiro fazendo tanta besteira e de repente vê que todo o investimento que fez não o levou a lugar nenhum. Agora, então, você descobre que estava perdendo tempo, e chora.
O outro monge, o que ri, é aquele bem-humorado que se deu conta de que gastou um enorme tempo fazendo besteira para encontrar a si mesmo e, agora, se dá conta de que não precisava ter feito nada daquilo. Ele começa a rir.
São duas respostas para a mesma coisa. Mas a verdade é que quando você se dá conta de quem você é, normalmente, há um impacto num nível tão profundo que você pode dizer: “não acredito!”.
E aí há um problema: se a mente não acredita pode ocorrer que, mesmo alguém que já se deu conta de quem ele verdadeiramente é, jogue isso fora. Isso ocorre porque, na verdade, é mais uma questão de reconhecimento. Não se trata de ser produto de algum fazer. Não é algo que você vai fazer, dar-se conta de quem você é – é algo que você desveste, que você descarta. E, então, nota aquilo que é intrínseco, natural. Aquilo que já foi dado. Você não pode ser nenhuma outra coisa que não isso.
No entanto, a sua mente pensa, porque você aprendeu assim. E isso é delicado porque toda criança é inocente e frágil. Qual é o grupo de pessoas mais abusado que existe na humanidade?

DL – As crianças.
SATYAPREM –
As crianças. E as crianças depois viram atores, agentes, políticos, psicopatas. Esses agentes foram crianças um dia, mas eles romperam com aquela naturalidade, com aquela natureza. O nosso trabalho é resgatar essa natureza – mas não de uma maneira terapêutica, não por meio da mente. A mente não nos interessa. Na verdade, ela precisa ser questionada. É quase como apertar intensamente uma coisa para que ela exploda e dali saia o que não é desejável – no sentido de não ser natural. Então você rompe com o que não é natural e fica com aquilo que é absolutamente natural em você.

DL – Você falou do monge que ri e do monge que chora. E você, pessoalmente, acredita que foi mais o que ri ou mais o que chora? Não sei se dá para definir de alguma maneira…
SATYAPREM –
É uma metáfora. Mas sou mais o que ri.

DL – É, percebi. Você usa bastante o humor como ferramenta.
SATYAPREM –
Mas eu queria dizer então que, acompanhando o trabalho do Osho – sou sannyasin desde 1982 –, acompanhando o “Wild Country” em diversos momentos, tem algo de maior relevância, que as pessoas deveriam levar em consideração até quando fazem aquela coisa lá [referindo-se ao documentário “Wild, Wild Country”]: a ligação com o mestre não é uma ligação social – é uma ligação particular. Se você vai a um mestre, você não vai pelo que acontece ao redor dele; você vai pelo que acontece em você. Ou melhor, o que importa é o que ele toca em você; é como é que ele move a sua estrutura interna.
Para mim, pouco interessava quantos carros ele tinha, o que ele fazia ou deixava de fazer porque existe em mim um pecador suficiente para compreender o pecador alheio. Se eu não conseguir aceitar, em mim, as minhas limitações, não vou aceitar em você. E um mestre está além de qualquer prova. Pois, o que é um mestre de verdade? Ninguém compreende. É claro que as pessoas dizem: “Ah, mas ele deveria ter feito assim ou assado…”. Mas isso está de acordo apenas com a sua opinião, que é um ovo.
A sua opinião não serve para enquadrar um mestre. Você tem que se dar conta de que ele é que vai enquadrar você. E ele não enquadra você porque o mestre não está aí para fazer isso – ele faz o contrário, ele desenquadra você. E, para algumas mentes, esse desenquadrar não é desejável. Por isso que eles se afastam ou julgam ou atiram pedras.
Mas o fato é que, para mim, a presença dele resultou em um trabalho de ir para dentro e não tinha nada a ver com o que estava acontecendo do lado de fora. E isso é fenomenal compreender: o que está acontecendo do lado de fora é, absolutamente, de nenhuma importância; o que importa é o que está acontecendo do lado de dentro. Ou seja, como que o trabalho toca você. E o trabalho, de verdade, é um não trabalho porque ele não faz nada [o mestre]; o mestre apenas invoca em você o seu próprio libertar-se. Até que você compreenda que você não pode ser um indivíduo livre, você tem que ser livre da noção de individualidade; você tem que se tornar algo absolutamente infinito.

DL – E, Satya, talvez você não possa responder por todos. Mas a maior parte das pessoas que estavam lá nessa época, que não tinham nada a ver, digamos, com a alta cúpula, que é o foco da série… Você diria que elas, realmente, pelo que você se lembra, estavam nessa busca? Elas realmente não se importavam ou não sabiam e estavam focadas nos ensinamentos do Osho? Quer dizer, o que você se lembra da maior parte das pessoas que estavam lá?
SATYAPREM –
Veja: quando você diz “alta cúpula”, você não está vendo o quadro inteiro porque isso a série não mostra. Aquela série é uma porcaria de verdade.

DL – Vamos chegar nesse assunto. Por que é que você acha isso? Sei que pouquíssimos brasileiros estiveram lá, então essa é uma ótima oportunidade.
SATYAPREM –
Porque aquela série trabalha com duas coisas: ela vende a ideia de imparcialidade… Vamos começar por aí, dando voz aos perversos que estavam lá e aos perversos que não estavam lá – que eram contra a perversidade que estava lá e foram mais perversos ainda.
Se você olhar bem, naquela época, definitivamente, Osho permitiu que vivêssemos plena liberdade.
O que aconteceu com aquele grupo que estava no poder? Idealizou-se a ideia de construir uma cidade – o que duvido que tenha partido do Osho, de verdade, nunca pareceu isso transparentemente. No entanto, eles tiveram essa ideia. Porém, a própria noção de isolamento era contraditória com o que Osho estava dizendo. Ele estava dizendo que nós devíamos ser zorba e buda ao mesmo tempo, ou seja, estar no mundo e não ser do mundo.
Então não havia nenhum sentido em criar uma ilha isolada onde todos vivêssemos felizes até porque sabemos que, enquanto você não estiver feliz, não posso estar feliz; enquanto o meu vizinho não estiver feliz, não posso estar feliz. Só estaremos realmente felizes se todos estiverem felizes. Mas, de qualquer maneira, havia pessoas por trás daquilo tudo ali que também eram da alta cúpula mas que não apareceram na série. E não aparecem por quê? Porque deturpariam a narrativa programada daquele troço.

DL – Atrapalhariam a narrativa.
SATYAPREM –
Atrapalhariam a narrativa. Então por que é que não entrevistam outros? O máximo que conseguem entrevistar é o advogado, que estava, obviamente, ligado a toda aquela porcaria.

DL – Você lembra dele? Do advogado?
SATYAPREM –
Claro. Lembro de todos.

DL – Na série ele parece uma pessoa que fala com uma certa clareza. Essa é uma impressão de quem não esteve lá…
SATYAPREM –
Claro, mas, mesmo assim, ele ainda está preso à política do lugar, à política daquele momento, daquela instância. Tinha outras pessoas que não estavam ligadas à política e que poderiam ter falado coisas que destruiriam a narrativa completamente. Mas isso não aconteceu.
Por isso que falei dessa imparcialidade que eles pretendem. É absurda. Você entrevista os loucos da sua cidade e aí você diz que isso vai dar uma noção de imparcialidade. Não! Vai dar uma noção negativa de um movimento que não tem aquela negatividade toda. Inclusive, se observarmos: por que surgiu a ideia de ter uma cidade? Não partiu totalmente de uma fantasia. Aquele era um ambiente agropecuário, digamos assim, uma fazenda, onde não se poderia ultrapassar um certo número de casas. Enfim, havia um limite. Regras. Leis impostas pela sociedade.
Quando o negócio cresceu muito ficou impossível manter da mesma maneira porque a justiça caiu em cima. O que é a justiça? A justiça é injusta, ela mantém o domínio de um estabelecido.
Então, quando perceberam que não poderiam permanecer nos mesmos moldes, aquilo tinha que ser transformado em cidade – o que era uma exigência do Estado americano. Então foram atrás do que era preciso para transformar o “rancho” em uma cidade.
Para realizar a independência municipal, Antelope precisaria votar. Sendo assim, seria óbvio que a meia dúzia de pessoas que viviam ali, todos rednecks, não iriam apoiar isso. Então aparecem com toda aquela história de que “eles invadiram o nosso espaço”. Mas os locais estavam dentro de suas casas, assistindo televisão! Não tinha nenhum espaço sendo invadido.

DL – Isso a série deixa muito claro, que tudo foi feito dentro da legalidade americana, não é?
SATYAPREM –
Não, isso não está claro na série. O que não está claro, que eu ia comentar, é que muito se falou em armas, por exemplo, mostrando a mesma sequência de imagens durante todo o documentário, não sei se você lembra.

DL – Do tiro ao alvo?
SATYAPREM –
Sim, do tiro ao alvo. Aquela imagem é repetida… Meio como a Globo, que mostra 20 vezes, mil vezes a mesma coisa, para criar uma ideia fixa de algo que não é real. Aquilo lá não é real. Aquilo é um treinamento de tiro ao alvo. Mas com aquelas imagens eles passam a ideia de que estava sendo preparado um exército para atacar os Estados Unidos ou algo do gênero. Mas ninguém estava interessado nisso. Não havia tal interesse.
O que aconteceu é que, quando se decidiu por fazer uma cidade, entre as exigências, por lei, nos Estados Unidos, era necessário haver escola, hospital, prefeitura, bombeiros e, claro, polícia, basicamente. Então: “OK, vamos ter que fazer os bombeiros”. Então tinha bombeiros, escola para as crianças que chegavam – não nos moldes conhecidos, mas era uma escola.
E então teve que se forjar também uma polícia. Uma polícia tem que ter armas, principalmente nos Estados Unidos. Então, para se ter armas legalmente, para se formar um quadro policial, as pessoas tiveram que ir para a polícia de Portland, para aprender o que fazer, como ser polícia…
Então tudo foi forjado. Mas o documentário mostra como se aquilo fosse uma loucura. Não! Aquilo foi uma resposta à legislação vigente, que exige, de uma cidade ou de uma implementação de cidade, certas coisas.
No documentário nunca se fala nisso, nem mesmo pelo advogado. E, claro, eles entrevistaram o advogado e usaram apenas o que interessava à narrativa que estavam dando. O Niren aparece de todo o coração, falando de uma verdade, daquilo que ele vivenciava amorosamente e como ele tentava defender algo indefensável.
Ele mesmo diz que “com os Estados Unidos não se brinca”. Entende? Quando os Estados Unidos não querem uma coisa, eles vão fazer de tudo para romper aquilo. E foi o que aconteceu. Sem entender, tudo foi feito para destruir aquele experimento. Sim, porque o que as pessoas não entendem, elas destroem. Não sei se você sabe…

DL – Inclusive, Satya, eu estava comentando com alguém ontem, que fica a impressão de que o Osho – ou a Sheela – errou ao escolher os Estados Unidos.
SATYAPREM –
Não, Osho não errou nada. Ele acertou tudo. Ele queria fazer um grande furor, ele queria chamar a atenção para o trabalho dele. Ele queria chamar a atenção. E, num certo sentido, ele se martirizou para que isso acontecesse. Foi uma espécie de crucificação moderna. Entende?
Ele se expôs e deu liberdade total sabendo que ia dar merda. Mas merda tem lugar na televisão, não é mesmo? Dá ar nos jornais, dá tempo na mídia.
Então era o que ele queria. Ele queria que as pessoas soubessem dele. Tem um dito que ele falava muito: “Falem de mim. Falem mal ou falem bem, mas falem de mim”. Porque quando a verdade se expressa ela se torna disponível, ela assume diversas formas e as pessoas vão a ela por motivos aparentemente equivocados. Mas, ao entrar em contato com ela, se molham. É como entrar na água. Você pode cair dentro d’água, alguém empurrar você para dentro da água, você se jogar para dentro da água… Não importa como você chegou à água. O resultado vai ser o mesmo: você se molha.

DL – Até, nesse sentido, por mais que se goste ou não da série, ele voltou a chamar atenção. Você acha que esse é um aspecto positivo?
SATYAPREM –
Exatamente. Esse é um aspecto positivo. Para você ver que ele tinha toda a razão. Uma série que é feita 20, 30 anos depois e aí está ele… O mero fato de dar espaço para o Osho falar já toca o coração das pessoas; as pessoas querem saber “o que é isso? O que aconteceu?” Entende?
E é isso que ele queria. Ele disse: “Vocês estão dormindo, vocês estão roncando; de alguma maneira eu tenho que acordar vocês”. E, sempre, o acordar não é agradável. Qualquer movimento de acordar é anti-establishment e o estabelecido, obviamente, vai brigar com unhas e dentes para manter as pessoas dormindo. Foi o que aconteceu. Osho é subversivo.

DL – Pelo que você acabou de dizer, o Osho tinha plena consciência disso, não é? Porque, para quem não conhece direito ou apenas assiste à série, fica essa impressão: “Ah, mas como é que Osho não sabia?”.
SATYAPREM –
Não: ele sabia que iria dar merda; ele não sabia que iria dar merda. Não sei se você entende o que eu disse. Ele sabia que iria dar merda; ele só não sabia que iria dar merda. Entende? Como que a merda iria se dar ele não sabia. Ele sabia que iria dar… Ele sabia no que iria dar os sonhos das pessoas – porque, quando você sonha com alguma coisa no futuro, você se perdeu.

DL – E você, aqui no Brasil? Porque hoje, com a internet, as pessoas ficam sabendo de tudo o que acontece… Naquela época, imagino que fora do seu meio, as pessoas aqui não tinham a menor ideia do que estava acontecendo nos Estados Unidos.
SATYAPREM –
Eu não estava aqui na época, então, não sei o que estava acontecendo aqui. Mas nós, discípulos do Osho, na época, andávamos todos de vermelho, com um colar pendurado com uma foto dele – o que já era uma provocação social. Imagina: eu, estudante de Jornalismo, na PUC-RS, vestido de vermelho, com um colar pendurado no pescoço.
Aqueles que eram, teoricamente, meus amigos, todos se afastaram. Sem nem mesmo saber muito bem, já naquela época, simplesmente se afastaram. Parece que a cor vermelha tem esse efeito nas pessoas. Eu não sei o que é, mas elas veem o vermelho e temem.

DL – Nesse sentido, hoje talvez não fosse muito diferente, não é? Alguém que aparece na faculdade com roupas diferentes.
SATYAPREM –
Não. Hoje é muito mais possível. Você pode ir de saia para a faculdade e você vai ser considerado um estranho, mas não vai haver muito choque. O problema não era esse. O problema era que se formou uma rede, digamos assim, mundial, de pessoas que andavam de vermelho. Então, você tinha the red people in Brazil¸ the red people em Londres, the red people em Switzerland, na Alemanha, nos Estados Unidos, na Austrália, na Itália, no Japão… Infiltrando-se vagarosamente também tinham uns na Rússia, onde era completamente proibido qualquer livro do Osho naquela época em que a Rússia era um Estado militarizado.
Então toda essa propagação é que era o problema. Não é um problema você ser estranho sozinho. Estranho sozinho você se torna apenas um inútil, você não faz nada. Todos te ridicularizam e pronto. Mas quando você é ridículo junto com muitos outros ridículos você deixa de ser ridículo; você passa a ser uma curiosidade: “o que é isso?”.

DL – Você estava aqui no Rio Grande do Sul, então?
SATYAPREM –
Quando?

DL – Quando se tornou discípulo do Osho.
SATYAPREM –
Sim, estava em Porto Alegre. Foi em Porto Alegre que tudo começou. Mas, logo no primeiro ano, no momento em que tomei o sannyas, em seguida fui para os Estados Unidos, para o primeiro festival. E, depois, muitas outras vezes. Fiquei, inclusive, morando nos Estados Unidos, depois Europa, Índia… Enfim.

DL – E você lembra, até hoje, qual foi a sua primeira impressão? O impacto de quando chegou lá no Oregon? Era muito diferente do que você imaginava?
SATYAPREM –
Veja, você está fazendo uma pergunta que se faz a um turista. Mas eu não era turista. Essa pergunta você tem que fazer a algum turista, que chegou lá sem saber merda nenhuma…
Eu não tive impressão nenhuma. Tive a mesma impressão que eu tinha daqui, que era um ambiente de meditação, um ambiente onde todos estavam meditando… E isso era verdade.

DL – Ah, mas você tinha as suas expectativas pessoais, por mais que você não fosse um turista, não é?
SATYAPREM –
Claro que não.

DL – Não?
SATYAPREM –
Claro que não. Eu não vivo – nem hoje, nem antes – determinado por expectativas. Eu não espero nada de você, nem de ninguém. Esperar para quê? Só vou me frustrar se tiver alguma expectativa, então não tenho. É sempre ganho!

DL – Mas muitas das pessoas… Muitas… Não sei se eram muitas… Mas imagino que tinha muita gente que ia para lá com expectativas, não é?
SATYAPREM –
No primeiro festival tinha umas 10 mil pessoas mais ou menos. Do mundo inteiro. Falando diferentes línguas, tentando se comunicar. Romperam-se muitas barreiras… De repente, um gaúcho podia namorar uma japonesa.

DL – Sim, num mundo que não era globalizado…
SATYAPREM –
Se você ficasse em Porto Alegre, qual seria, matematicamente, a chance de namorar uma japonesa?

DL – Em São Paulo é maior, aqui acho que é menor.
SATYAPREM –
Não, tão pouco em São Paulo. Lá você vai namorar os Nikkei.

DL – Ah sim, japonesa, japonesa, mesmo, não.
SATYAPREM –
Japonês mesmo é outro papo, é completamente diferente. Você vê uma Nikkei sambando. Mas você vê uma japonesa sambando? Não dá, é difícil. É outra coisa, é outra… Eu estive no Japão há uns anos atrás, é completamente diferente, é outro planeta.

DL – Bom, acho que, para terminar, vamos falar dessa fixação com a questão do sexo ou do amor livre. Acho que nem era a proposta da série, pois, assistindo-a, nem ficamos sabendo nada sobre a filosofia do Osho, mas bate-se muito nessa questão do amor livre. Eventualmente, para quem não conhecia o Osho, falando de novo de estereótipos aqui, por que essa fixação? Pois a impressão que fiquei é que, para os rednecks, de fato a única coisa que os incomodava era saber que tinha pessoas ali, supostamente, praticando o amor livre.
SATYAPREM –
É simples: se você se reprime e não pode ter certas coisas, você não quer que ninguém tenha. Então, a energia de ódio e de reação que estava ali era uma energia sexual reprimida.
Quando você sabe que há um lugar onde as pessoas são felizes, rompendo com limites previstos na sociedade, você não pode se libertar. Muitos de Portland se tornaram sannyasins, muitos do Oregon viveram essa experiência. Mas aquela série cretina também não entrevista essas pessoas; entrevista só os reacionários, aqueles que queriam o mal de tudo e que riam – psicopatas, doentes. Está neles o prazer pelo fato de não ter dado certo.

DL – E o curioso é que essas pessoas falando, ainda hoje, sobre aquilo, mostram esse prazer, não é?
SATYAPREM –
Exatamente. Um prazer mórbido em ver uma coisa errada acontecer. E dizer: “Nós estávamos certos!”.
Mas veja: os Estados Unidos não são modelo de honestidade nem de integridade, nem de liberação, nem de nada. E as pessoas estão iludidas, dando aquelas opiniões… Pelo amor de Deus, elegeram o Donald Trump!
O que é que é “elegeram o Donald Trump”? Não elegeram: o sistema coloca, por diversas manipulações, o que interessa a ele, inclusive, para criar cortinas de fumaça para outras coisas acontecerem. Ou você acredita na real governabilidade do Temer? O Temer é um testa de ferro, está ali só preenchendo um lugar que o povo, ignorante, compreende como uma Presidência, mas as outras coisas estão sendo feitas por trás, muito mais importantes. Nos Estados Unidos, igual.
Para falar a verdade, essa série é feita por dois meninos que aprenderam alguma técnica de filmagem, de documentário, que pegaram todo aquele material, montaram e exploraram o que de mais negativo havia. Aquilo não pode ser bom de maneira nenhuma. A única coisa que é boa ali é que eles viabilizaram a imagem do Osho vir à tona novamente.
E, claro, como contém negatividade, dá audiência. Quanta gente gosta de consumir negatividade? O ser humano, na sua inconsciência, vive absorvendo negatividade. A maioria das pessoas liga a televisão e fica consumindo só a parte mais mórbida da televisão, os filmes, as séries… É só morte, só coisa de péssimo nível.
O cinema europeu antigo não tinha isso, ninguém matava ninguém, era um outro tipo de filme, de cinematografia. Hoje, temos um produto americanizado, uma verdadeira fábrica de mal-estar que as pessoas compram para se sentirem bem. Veja que paradoxo! Compra-se mal-estar para sentir-se bem.
Por que há quem goste de ver alguém matando alguém? Por que isso lhe faz se sentir bem? Por quê? Porque a maioria gostaria de fazer a mesma coisa. Mas é proibido; então, não fazem. Mas o fato é que estamos criando um grande problema para nós mesmos. Porque, se você alimenta a negatividade, ela tem que sair para algum lado.

DL – Mas, enfim, acho que pelo menos uma coisa na série você deve não ter “gostado”, mas, talvez, achado irônico. Você sabia que o lugar ali no Oregon, onde aconteceu tudo isso, depois foi comprado por um milionário e virou um acampamento juvenil para crianças cristãs? Eles revelam isso bem no final. Acho que isso diz muito sobre os Estados Unidos, não é?
SATYAPREM –
Isso é uma tentativa, na verdade, de curar o lugar.

DL – Como se tivessem botado fogo no lugar.
SATYAPREM –
De dar um prêmio para aquela comunidade que expulsou esse pária que era o Osho. Na verdade é uma maneira de manipular a população. Então, eles ganharam um prêmio. Aquele lugar agora virou um lugar de crianças cristãs. Nada mais temos a temer. Somente aos terroristas. E aí começa tudo do mesmo, apenas para um outro lado: é preciso ter um inimigo.
Veja: o ego, a noção de si mesmo é falsa; ela só sobrevive com um inimigo. Quando você vê que ninguém é seu inimigo essa noção de si sucumbe, desaparece. Então você encontra inimigos em todos os lugares e em qualquer lugar para não “se perder”.
Toda a história, a saga americana, é um inimigo. Não é muito diferente da israelita, dos judeus, que é a saga dos escolhidos que são sempre abusados por inimigos, que têm que ser destroçados.
Nunca esse tipo de povo vê a si mesmo como um problema. O problema é sempre o outro. E, quando o problema é sempre o outro, nós temos um grande problema: porque não existe o mundo sem o outro. Até que compreendamos que o outro somos nós mesmos, estaremos em guerra.

*

Essa é a íntegra da entrevista.
Veja a matéria que foi publicada aqui: https://www.uol/entretenimento/especiais/osho-no-brasil.htm#wild-wild-brasil

*

Veja o álbum Wild Wild Leela no Facebook: https://www.facebook.com/pg/satsangcomsatyaprem/photos/?tab=album&album_id=10155366544261790

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: