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Você não é quem pensa que é

Ana Elizabeth Diniz / Especial para “O Tempo”
Belo Horizonte/MG – Junho/2006

É preciso esgarçar conceitos construídos ou assimilados ao longo do tempo para entender o que propõe o místico Satyaprem – palavra que significa amor pela verdade.

Com uma sinceridade rara, ele vai, ao longo da entrevista, revelando que é preciso que rompamos com a estrutura formal da mente e vislumbremos o desconhecido, ou seja, a nossa própria natureza. Somos estranhos para nós mesmos.

É preciso ter consciência da consciência, ou ver quem realmente somos. “Não há busca, não há caminho, não há método. A iluminação é aqui e agora. Nada é tudo o que você tem a fazer. Renda-se!”, provoca o místico.

É esse olhar quântico da experiência humana na Terra que Satyaprem, 47, compartilha com centenas de pessoas que vão participar dos “satsangs” – palavra sânscrita que significa encontro com a verdade – em diversas capitais do Brasil.

O que ele propõe é radical: “O ser humano não tem meta. Não estamos aqui para fazer nada, não temos a menor função”. Sua busca começou aos 23 anos, quando estudava jornalismo na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul.

Anarquista teórico, se encantou com o pensamento de Carlos Castaneda e do líder espiritual Osho e foi viver em Oregon, Estados Unidos, na década de 80, em uma comunidade conhecida como Rajeeshpuram, um “oásis no deserto”, para onde se dirigiam todos aqueles que queriam experimentar uma vida livre, desapegada das amarras de uma sociedade escravizada pela ganância financeira.

Lá, Satyaprem, que não considera importante revelar o seu nome de batismo, se tornou um “sannyasin”, classicamente um renunciante. Praticou durante anos a meditação ativa e conheceu uma vida de libertação dos sentidos.

Em Seattle, Estados Unidos, estudou com Suddha, uma discípula de Osho, que criou uma técnica chamada iluminação intensiva, ou vislumbre de iluminação, também conhecida no Japão como “satori”.

Hoje, esse gaúcho de Bagé, e muitos anos vividos nos Estados Unidos, Índia, Holanda, Alemanha, Noruega e Suécia, trabalhando em comunidades como terapeuta, sentencia: “Você não é quem você pensa que é”.

“O real não é o experimentado”

Estou diante de Satyaprem, olhos negros intensos. Como que advinhasse a complexidade do que ali seria dito, peço um café forte. E me coloco aberta para acolher palavras, apenas palavras que provocam, inquietam, estimulam e me remetem a um templo interior pouco explorado.

Naquele momento compreendo que “o real não é o experimentado”. Contrariamente ao que eu supunha, eu não sou a observadora do mundo.

“Quem está vendo não é quem está observando. O observador é a consciência que é eterna, universal e una. Todos somos a mesma coisa – não coisa -, a consciência que não pode ser experimentada pelos objetos dos quais somos conscientes. O ser humano não pode experimentar a consciência porque ele é a própria consciência sonhando que é um ser humano”, explica Satyaprem.

Lampejos de nós

Sem me dar tempo para processar essas informações, ele prossegue: “Tornar-se pressupõe tempo e o tempo não existe. Essa experiência é apenas um lampejo daquilo que já é. Ou seja, tornar-se é uma impossibilidade, pois já somos. Tudo faz parte e é a mesma coisa. Buscamos experiências daquilo que somos antes de sermos o que pensamos que somos – seres humanos”.

O místico considera que devemos resgatar a ordinariedade. “Ela é fundamental para a compreensão de nossa natureza. A idéia é recolher idéias e viver o real, ver o ordinário como divino”.

Satyaprem alerta: “Perceba quanta energia o indivíduo consome em tornar-se. Projeções para o futuro. Isso gera culpa e ansiedade. Estar preso ao presente é a verdadeira liberdade”. Para o místico, o sonho do ser humano é recriar quem ele é quando ele já faz isso num ato de amor, breve.

“Compreender é controlar. Não existe instrumento capaz de entender o ininteligível. O corpo não contém a consciência, mas a consciência contém o corpo. O corpo está na consciência”. Mas, afinal, pergunto eu, qual o objetivo do ser humano?

“Descobrir quem somos. Nossas ações são gerenciadas por uma força maior, estranha e externa a nós. O mecanismo corpo e mente é apenas um objeto na consciência. Na unidade a consciência se confunde com o objetivo até que ela se ‘desconfunde'”.

A mente se acomoda no silêncio do agora

Você tem que se acomodar no silêncio do agora. Só tem um lugar para ficar, e esse lugar lhe é dado, naturalmente, de presente. Ele é absolutamente o lugar mais relaxante de você ser. Seja agora! E veja o que você colhe desse “ser agora”.

Se você se aquieta, você nota que aqui e agora não tem mente. E mesmo que ela apareça, como você não está a alimentando, ela desaparece. É como se a energia que estava focada antes em algum lugar fosse desfocada. O seu corpo-mente tem sempre um impulso, porque a natureza do corpomente é movimento.

Parada, a mente não existe. Ela sabe que parada, some. Então, ela se alimenta, ela tem sempre que fazer alguma coisa. É o movimento da mente e do corpo que faz a manutenção da idéia que você tem de quem você seja. Se você começa a se aquietar, essa idéia não é mais retroalimentada.

Essa idéia começa a sumir e surge algo novo: você começa a se tornar consciente de que você não é o que você pensa que é. Você permanece sendo quem você pensa que é, simplesmente, relembrando o passado. Sua memória tem um poder e se você nota isso, você pára de contar sua história e começa a ficar no silêncio.

Então, a história do silêncio – que não é uma história – começa a ser contada para você. Agora você olha para o agora. E, nisso, nasce um “novo você”. A ênfase em olhar para dentro tem que ser absoluta. Se você olhar para o lado externo, o que você vê? Limitação, em todos os lugares.

Se você olhar para fora, tudo o que você vê é limite, inexoravelmente. Se você vê isso, você tem que antever que esse corpo e essa mente têm limites, porque eles foram criados por pessoas altamente limitadas pelo tempo, pela cultura imposta.

Claro que você pode trabalhar isso, mas, mesmo assim, não há o ilimitado na mente e no corpo.

A partir daí nasce uma outra possibilidade: como não olhar para o outro com compaixão, se você tem limites também? Nasce uma relação diferente. Você não mais exige do outro algo que ele não tenha condições de lhe dar.

Você não está aqui para preencher o outro, porque o seu preenchimento não vem de fora para dentro, e, sim, de dentro para fora.

A ênfase é: vá para dentro! E na medida em que você vai para dentro, você vê que as pessoas estão nesse atropelo, nessa ansiedade, nessa angústia, nesse medo, porque tudo que elas têm está do lado de fora. Você tem que começar a ver isso no seu dia-a-dia.

Comece agora! Este é um bom momento. Neste instante: quem é você? Para onde você olha para responder a essa pergunta? Olhe para dentro! Comece a entender o que “dentro” seja.

E, de dentro, não pode surgir resposta nenhuma, a não ser silêncio, relaxamento e paz. Toca nisso, se desmancha nisso… Já está aqui e agora! Meditação, então, não é uma técnica ou algo a ser feito, é algo inerente, que está dentro de você. Basta olhar para dentro.

Fragmentos de iluminação

Morte – Você ainda vai morrer, você ainda vai sentir dor, mas tem uma coisa que em nosso processo completo de vida não levamos em conta, não é falado, não é tocado, não é elaborado de forma alguma. Nós vivemos dentro da nossa cultura de uma forma refletida! Nós nos refletimos nos outros. E uma experiência refletida é secundária. Ela é indireta, não é uma experiência direta de quem somos.

Sofrimento – As pessoas sofrem porque vivem de acordo com o reflexo e o reflexo não é o que você é. Você não é o seu reflexo! Você é aquilo que é refletido, você é aquilo que está atrás do espelho.

Homem – Nós nos relacionamos com o mundo como se o mundo fosse um objeto, as pessoas fossem objetos e nós fossemos um sujeito. Nós não passamos de objetos também. Essa pretensão de ser alguém, que você chama de eu, é apenas um objeto. E aquilo que você é, transcende tudo isso, porque não pode ser manipulado por ninguém.

Você não pode ser nada que você esteja vendo, você é simplesmente aquele que vê. Você não pode ver a si mesmo, por que quem veria? Aquilo que nós somos, a essência é imensurável. No entanto, pode-se saber, pode-se realizar, pode-se reconhecer isso pelo simples motivo de que isso é a nossa realidade.

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