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Representação, presente e inação ativa

O que é isto? [Satyaprem pergunta segurando um objeto]

Participante 1 – Um livro.

Quem te disse que isto é um livro?

Participante 1 – Alguém me disse. Eu aprendi. Não me lembro…

Isto é um livro porque alguém te disse… Ou não? Ou é um livro?

E você, o que é isto? [Ainda apontando para o mesmo objeto]

Participante 2 – Parece um livro.

Parece um livro, não é? E você? Parece uma pessoa ou é uma pessoa?

Participante 2 – Creio.

Eis a palavra chave: crer. Então isto aqui é um livro, ou você crê que é um livro? O nosso propósito aqui é deixar de crer e saber. A minha pergunta é: o que é isto?

Participante 3 – Eu não sei.

E você, o que acha?

Participante 4 – Eu acho que tenho que abrir para saber.

Se você abrir, vai fazer o quê?

Participante 4 – Vou pegar e…

É difícil, não é? A mente idolatra a representação. Para ela, tudo precisa de uma representação. Isto aqui [apontando para o objeto em questão] é representado por este nome: livro.

Mas o que é isso, afinal? Nós não queremos a representação, queremos saber o que é isso. E é difícil responder essa pergunta, porque, na verdade, você nunca olhou antes dessa maneira para as coisas.

Veja, este artifício dentro da mente, que chamamos de ego – que é a noção de si mesmo separado do outro, separado das coisas –, adora representação. O seu ego é o seu representante, não é você. Ele apenas representa você. Então as pessoas encontram umas às outras através de seus representantes, elas não encontram a si mesmas diretamente.

Se você olhar do ponto de vista que estou propondo, a sociedade se formaliza através de representações. Tudo tem uma representação. Até mesmo quando não serve para nada e não sabe o que fazer da vida, você tem um filho e, necessariamente naquele instante, passa a representar a instituição pai/mãe. Agora você continua um inútil, porém, representando uma fantasia.

Note! Historicamente, a mente tem buscado por representações. A quem o papa representa?

Participante 1 – A Igreja.

Não, o papa não representa a Igreja. O papa é a cabeça da Igreja. Quem ele representa?

Participante 2 – Supostamente, Deus.

Errado. Ele representa o filho de Deus. Ele é o representante de Jesus. Ele é o seu representante terreno. “The only one who is a child of God”, o único que é filho de Deus – você não é filho de Deus, vai tirando o seu cavalinho da chuva.

[Risos]

O que o Dalai Lama representa?

Participante – Buda.

Isso. É uma representação. E todas essas representações são respeitadas. Adoradas. Por quê? Porque a fórmula existe e é aplicada em todos os níveis.
O reitor da faculdade representa o poder instituído. E mais, não basta você ser um bacharel em Direito por exemplo, é preciso ter a carteirinha da OAB. Você tem que ter uma representação, uma firma. Se você simplesmente advoga no seu quarto, não tem a menor credibilidade, precisa ter um escritório. De preferência, daqueles com três nomes: “Pinto, Volsbein e Smith – Negócios Escusos”. Tudo em busca de uma representação.

Aqui, no entanto, brincamos com a possibilidade de você deixar de ser representado por uma coisa que não é e assumir um você sem nenhuma representação. O duro é que tudo o que conhecemos se apoia numa representação. E estamos tão bem aclimatados, aculturados, com a questão da representação, que não notamos nem mesmo mais o que aquilo representa, ou o que significa.

Experimente! Ande com um livro por aí, pegue um ônibus, vá trabalhar ou para a escola com um daqueles livros bem complicados debaixo do braço e veja que você começa a ter credibilidade. Você está representando um certo nível de intelecto. Uma abstração, é claro, mas que, de alguma maneira, é respeitada.

Dependendo do nome da escola em que estudou, não importa se aprendeu algo, mas se, segundo as estatísticas, o colégio tem um bom nível de ensino, você está bem representado. O que importa é o nome, a representação.

Existe até mesmo um fenômeno chamado currículo. Ou seja, a representação da representação da representação. Tudo o que aconteceu no seu passado e algumas pinceladas de mentira. Mas a verdade é que ninguém jamais contratou você por sentir você no momento presente. Sempre esteve em pauta o seu passado, as representações.

Romper com a representação é o convite.

Mas como fazer isso?

Questione-se: quem você pensa que é? Se a resposta for “uma pessoa”, saiba que isso é uma representação, uma abstração. Afinal, o que é uma pessoa?

Então remova aquilo que é representado e veja o que é que fica. Inevitavelmente, o que fica é a fonte de tudo.

Quem é você?

Você é a fonte de tudo.

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