O segredo aberto

Participante – Você falou algo sobre dizermos “sim” para tudo, mas noto que o não também tem uma coisa instintiva de proteção, de resguardo…

Claro, isso é correto. Mas quem você está protegendo?

Participante – Acontece de às vezes cairmos em situações em que…

Quem cai nessas situações?

Participante – Eu.

“Eu” quem? Quem é você?

Participante – O que você quer saber? Sobre a pessoa ou sobre o “eu”?

Pode ser sobre o “eu”, se você quiser. Quem é você?

Participante – Nunca houve situações em que você teve que dizer “não” para se resguardar?

Você não deveria preocupar-se comigo, senão em saber quem você é.

O que acontece é que estamos aqui compartilhando um segredo, e é necessário que você queira muito saber esse segredo, senão não vai vibrar no seu coração e você não vai compreender. Sinto muito que seja assim, mas é assim que é.

Você ainda não penetrou no segredo que estamos compartilhando. Compreendo o seu ponto de vista – quanto ao não servir de resguardo em alguns momentos –, mas se essa é a sua única realidade, isso aponta para o fato de que você está vivendo a realidade da mente. Não há uma compreensão mística de quem você realmente é.

É verdade, o não tem uma função. Mas quando você começa a despertar para aquilo que você é, ele perde essa função.

Sem passado ou futuro, você não existe. Não há um você que necessite resguardo ou proteção. Os cuidados, inclusive instintivos, com o corpo podem ser tomados. E a cada passo que você se aproxime de quem você verdadeiramente é, mais límpida será a visão a respeito do que precisa ser feito. Porque é a mente, com todos esses equívocos que ela propõe, que o afasta da ação correta, da atenção no momento presente.

Você é pura presença, não há nada fora de você. Do que você quer se proteger?

O poder do agora

De certa forma todos estão interessados em meditação como um remédio, mas trago a seguinte notícia: quando quer que seja que a sua própria atenção esteja focada no agora, isso é meditação.

Quando quer que seja que a sua atenção esteja focada no tempo, você está pensando.

Então, chamo a sua atenção para o agora, e que, agora, tudo está perfeito. Há nada no agora, a menos que você comece a pensar. Logo você pensa no amanhã e a sua meditação deixa de acontecer.

Por que é tão difícil para a mente concordar com a ideia de que não existe amanhã? Mas, pondere, você já experimentou o amanhã? Precisamos de acuidade. A mente tem que entender, olhe para isso com olhos claros: onde se encontra o amanhã?

O único convite, portanto, é que você seja capaz de entender isso e de transportar a sua atenção para o agora. Essa fala não é exata, mas é o mais próximo que posso levá-lo, preste muita atenção.

As pessoas estão traçando “n” caminhos e praticando inúmeras técnicas de meditação que prometem fazê-las despertar amanhã. Mas você só pode acordar agora. O que quer que seja que esteja acontecendo, o que quer que seja que você esteja fazendo, permaneça conectado com o agora. Experimente! Engate toda a sua energia, toda a sua atenção no agora e veja o poder que o agora tem.

A chance do ‘sim’ nos invisíveis da atenção

Alguns de vocês já me ouviram falar do filme “Muito além do jardim”, se trata de uma grande obra do Peter Sellers. O título original é “Being There” e o personagem principal, Mr. Chance, desempenhado pelo próprio Sellers, é pura atenção e relaxamento. Ele se move a partir do momento presente, sempre. Nunca está preocupado com o ontem ou o amanhã. E, principalmente, está sempre dizendo “sim”, nunca está em conflito com absolutamente nada.

Participante – Um “sim” verdadeiro, não é?

Totalmente autêntico.

Mas, para alguns de vocês, quero ressaltar: não se preocupe se o seu sim é autêntico ou não, diga “sim”, de qualquer maneira. Isso porque a mente é muito ardilosa e pode querer gerenciar a autenticidade do seu sim. Portanto, simplesmente, diga “sim”.

Osho disse algo preciso sobre isso: “O não é importante para o ego. Uma pessoa egocêntrica está sempre dizendo não.” Você percebe? Agora, observe uma criança, daquelas ainda pequenininhas: ela está sempre pronta para o que der e vier. Inclusive, ela está tão aberta e disponível para explorar absolutamente tudo à sua volta, que impomos sobre ela alguns limites.

sim, portanto, é autenticamente natural, até que os pais comecem a delimitar: “Isso não pode!”. E assim, por volta dos três anos de idade, a criança aprende também a dizer “não”. Alguns tomam gosto e se tornam pequenos tiranos, dizem “não” para qualquer coisa e se alimentam da reação que esse não causa. E há quem não saia dessa fase.

Por isso Osho aponta para a impossibilidade da mente dizer “sim”, ela sempre diz “não”, ela sempre sabe mais e/ou sempre quer outra coisa que não o que está acontecendo no momento presente. Essa é a ilustração da formação daquilo que chamam, psicologicamente, de “caráter”.

Em nosso contexto, em atenção, quando você está presente, quando há observação, você não firma nenhum caráter, apenas diz “sim”.

É claro que você vai ter que experimentar. Mas para uns de vocês seria de grande valor, categoricamente, dizer “sim” perdidamente para tudo. A mente propõe: “Eu não como beterraba”, e você come. Pois sempre que você tiver que pensar, será gerada uma resposta não espontânea, completamente dependente do seu condicionamento, de lógicas internas, inclusive, invisíveis ao seus olhos.

Para enxergar esses condicionamentos será necessário um microscópio, cujo nome, aqui, é “atenção”. Somente em atenção você pode ver o seu condicionamento jogando. E é no momento em que você , que nasce a possibilidade de cancelamento desse fluxo inconsciente.

É muito sutil e você vai ter que experimentar. O primeiro passo é desvendar os condicionamentos, essa é a única maneira de compreender o não e se abrir, em relaxamento, para o sim. Pautado na observação, não há necessidade de proteção ou limites, porque não há antes nem depois. No agora, com o sim sendo o seu guia, nada pode molestar a sua paz. E, assim como Mr. Chance, você pode se mover no mundo, livre de conflitos.

 

O indefinível isso

Talvez na sua solitude caseira você não consiga acessar diretamente a observação inerente, e romper esse elo que existe entre quem você pensa ser e os acontecimentos à sua volta.

Por isso é fundamental aceder à autoinvestigação: Quem é você?

Se quer encontrar a si mesmo, você tem que parar de se identificar com aquilo que é visto e voltar-se para aquilo que .

Você tem mantido a sua atenção voltada para os acontecimentos, o que é fundamental para que essa entidade que você chama de “eu” se mantenha coerente, concreta.

É à medida que você não mais deposita tanta confiança naquilo que acessa com os sentidos, que a entidade que você imagina ser começa a se liquidificar, a se vaporizar. A desaparecer.

É preciso coragem e muita energia disponível para experimentar a dissolução. Os que se aproximam, comumente desistem, têm medo… Para ir adiante, é preciso investigar: Quem está com medo? Automaticamente você diz “eu”, sem nunca perguntar de uma maneira potente: “Quem sou eu?”

Quem é esse que sente, pressente, pensa e vive como sendo “você”?

Talvez você não tenha o anseio de encontrar a si mesmo, mas aqui o convite é para que não mais aceite nenhuma descrição como sendo você. Retorne à fonte, à observação – livre de definições –, onde a mente não tem acesso.

O quereres, o depois e o antes de tudo

O encontro com a Verdade convida a ver que você não precisa querer nada, nem se preparar para depois, porque não tem depois e não há quem queira. Porém, tal proposta se torna extremamente incompreensível devido ao seu condicionamento. De uma maneira geral, nenhum de nós foi convidado a viver tal realidade – livre dos quereres e do depois.

O confronto com a Verdade, num primeiro instante, é brutal; você tem que entrar profundamente na questão “quem sou eu?”, não há outra forma de explorar isso. Tudo precisa ser confrontado, tudo aquilo que você acredita e carrega como valioso.

Você está pronto?

Vamos experimentar: fale-me de uma preocupação sua, qualquer uma…

Participante – Meus filhos.

Agora investigue: você tem filhos? Ou, ainda, quem tem filhos?

Você vê? É brutal! Já ouço daqui a sua mente gritando: “Como assim, eu não tenho filhos?”

Olhando para o mundo dos sentidos e, principalmente, para o mundo condicionado, é inadmissível que você não tenha filhos. O mundo dos acontecimentos parece muito real; essa tem sido, equivocadamente, a sua realidade.

A Verdade, portanto, choca completamente com aquilo que você percebe. E é por isso que você está aqui: para dar-se conta de que você tem percebido apenas aquilo e como aprendeu a perceber.

A proposta não é que abandone os seus filhos – se você os tem –, é saber quem você é, antes de pensar a si mesma como aquela que tem filhos. A partir daí, a sua maneira de se relacionar com o mundo será completamente outra. Saber que não é você que tem filhos é a maior liberdade que você pode oferecer a si mesma e a esses que você está chamando de filhos – que, diga-se de passagem, não deveriam ser motivo de preocupação.

Agora, nem ontem nem amanhã

Hoje vi um cartoon – não lembro exatamente, mas acho que era do Calvin e Haroldo – em que um dos personagens perguntava para o outro: “Qual é o seu dia preferido?” Ao que o outro respondia: “Hoje. Hoje é sempre o meu dia preferido”.

Não é gracioso?

Agora, perceba: para onde você tem olhado? O que está acontecendo neste exato momento?

Tudo o que você percebe, tudo o que você decodifica, na verdade, depende da estrutura condicionada, apreendida. Sem que isso ocorresse, nós estaríamos sempre no hoje, para não dizer – por enquanto – “no agora”.

Pegando esse gancho, e seguindo o embalo dessas graciosas surpresas que o mundo virtual nos proporciona de vez em quando, também vi, há pouco, um vídeo que retratava a relação dos animais com a morte; e ficou claro que, basicamente, eles não têm consciência da morte. Isso não é incrível? Como seria a sua vida se você não tivesse consciência da morte?

O leão foge do perigo iminente, mas não está pensando sobre a morte. No momento em que é capturado, ele não pensa: “Estou morrendo!”. Aos animais falta um elemento, que é o centro de todo sofrimento humano: eles não se pensam.

Você tem tentado administrar o aparente enredo sem se voltar à raiz da questão. Aqui, portanto, a proposta é irmos direto ao assunto, direto ao ponto: a raiz de todos os problemas é o “eu”. Enquanto houver um “eu”, haverá o ontem e o amanhã; o nascimento e a morte.

Contemple: sem acesso ao conteúdo do ontem ou às projeções do amanhã, quem é você? Essa não é uma pergunta banal, investigue! A morte é inevitável, entretanto, saber quem você é faz com que você não morra. Mas não olhe nem para o passado nem para o futuro para encontrar a resposta.

Segundas e quintas

Este blog trará textos inéditos, frutos de transcrições dos encontros com Satyaprem.

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Bem vindos!

O imenso desconforto e a paz inerente

Satsang não tem nenhuma outra proposta senão a de fazer com que você olhe para a fonte, para a raiz de todos os acontecimentos.

De acordo com o condicionamento imposto, a sua atenção recai inteiramente sobre o lado de fora. Você tem tentado, incansavelmente, controlar o lado de fora, com apenas uma meta: se dar bem.

Quando digo “condicionamento”, podemos, inclusive, incluir o coeficiente genético de sobrevivência do organismo. Mas é certo que também o condicionamento sociocultural nos leva, invariavelmente, para o lado de fora.

Dessa necessidade inconsciente e de uma razoável falta de esclarecimento, nascem milhares de maneiras de atender a esse anseio. Todos estão interessados em como se sentir melhor, como se dar bem, como viver mais, como ser mais inteligente, como ser mais meditativo, como conseguir isso ou aquilo… o que, no fundo, tem a ver com uma falsa noção de si.

Satsang se antepõe a tudo isso, o que causa à mente um imenso desconforto. Pois a Verdade, o encontro consigo mesmo, não irá, de nenhuma maneira, propor que você melhore qualquer coisa no espaço ou atinja qualquer meta no tempo.

O nosso intuito aqui tem apenas uma realização: desencobrir a fonte.

Antes de mais nada, verifique o que está por trás de todos os objetos e objetivos da mente, pois, de uma maneira bastante inconsciente, a noção que você tem a respeito de si foi condicionada. E a partir dessa condição aprendida você tem gerenciado aquilo que chamam de “sua vida”.

Se pudesse simplesmente ver que tudo isso é mentira, imediatamente retornaria – magneticamente – ao natural, ao original em você.